Em vez de nimbos no céu, soçobra calor, muito calor. Até que já tinha testemunhado o rigor do sol outras vezes, mas o que espécie me causa é que, para essa época do ano, isso se afigura absolutamente incomum. É fato consabido: em toda esquina ou calçada se observa a fartura de comentários sobre o assunto. As reclamações escorrendo junto com o suor do corpo. Fadiga nas alturas! Mas não é o clima que está maluco, como costumeira e errôneamente se julga: a humanidade é que não cuida de casa e apesar de seu trato com a Natureza ser "coisa de louco", reputo apenas como coisa de relapsos e irresponsáveis.
sábado, 20 de março de 2010
sábado, 13 de fevereiro de 2010
Estes tempos
O pó dos sonhos
Na sina dos ventos
Que espraiam o tempo
Precipitou-se no abismo
Onde jazem perdidos
Desejos insanos.
Na imensidão
De tamanho incogitável
Viaja o derradeiro brilho
Das esferas sepultadas
No passado longínquo.
A turba
Disso não se apercebe.
Alguém conhece
As profundas razões do ser?
Alguém já mergulhou
Nos estreitos desse mar
E trouxe as respostas à tona?
Não estamos à toa
Mas enquanto tudo passa
E se mostra e se repassa
Ainda nem entendemos o nascer
Do sol a revelar as verdades
Das manhãs diárias:
Deixamos que se vá
Simplesmente que se vá
Na bruma dissipada
Na razão estrangulada
No amor encarcerado
Nas grades do adorado...
Metal.
Por todos os lugares:
Bússolas desconcertadas
(Des)norteiam...
Embarcações desfarolizadas
Ao léu do céu no mar.
Nos templos
Hinos humanos
Cantados em letras
De sentidos avessos
Exaltam verdades sectárias:
Navalhas na alma
Almas na lama
Sangrando
As dores destes tempos
Gestadas por elas mesmas.
Na sina dos ventos
Que espraiam o tempo
Precipitou-se no abismo
Onde jazem perdidos
Desejos insanos.
Na imensidão
De tamanho incogitável
Viaja o derradeiro brilho
Das esferas sepultadas
No passado longínquo.
A turba
Disso não se apercebe.
Alguém conhece
As profundas razões do ser?
Alguém já mergulhou
Nos estreitos desse mar
E trouxe as respostas à tona?
Não estamos à toa
Mas enquanto tudo passa
E se mostra e se repassa
Ainda nem entendemos o nascer
Do sol a revelar as verdades
Das manhãs diárias:
Deixamos que se vá
Simplesmente que se vá
Na bruma dissipada
Na razão estrangulada
No amor encarcerado
Nas grades do adorado...
Metal.
Por todos os lugares:
Bússolas desconcertadas
(Des)norteiam...
Embarcações desfarolizadas
Ao léu do céu no mar.
Nos templos
Hinos humanos
Cantados em letras
De sentidos avessos
Exaltam verdades sectárias:
Navalhas na alma
Almas na lama
Sangrando
As dores destes tempos
Gestadas por elas mesmas.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Frase de efeito
"Tudo o que começa com raiva, acaba em vergonha"
E como a verdade resplandece imperiosa nessa feliz frase de Benjamin Franklin.
Ensaio sobre a Realidade - I
O que vem a ser a realidade? Permanecemos tão concentrados vivendo conforme tudo o que nos rodeia se apresenta, que olvidamos a necessidade da importância de se fazer as necessárias reflexões que esse questionamento suscita. Em vez disso, mergulhamos profundamente num mundo regido pelos sentimentos que derivam dessa realidade, daí surgindo, por sua vez - e açambarcando a maioria das individualidades viventes - uma espécie de acomodação que obsta no espírito humano o imperativo de se pensar sobre se essa realidade, com suas instituições, valores e culturas, é verdadeiramente real. Dessa forma, a sociedade humana se integra dentro de uma zona de acomodação, isto é, vive segundo uma espécie de conformismo, ao aceitar tudo o que compõe a realidade material e a superestrutura dela consequente, tal como se apresentam, sendo que tal noção se constrói permanentemente perpassando as diferentes épocas históricas, fazendo parte do imaginário coletivo. Por óbvio, existiram e existem aqueles que passaram a buscar uma conceituação mais apurada da realidade e, nesse exercício de pensamento, deixaram essa zona de acomodação e teceram teorias respeitáveis acerca da realidade. Retroceda-se à Antiguidade Clássica e se encontrará em Platão, talvez, o mais emblemático e pujante desses pensadores da realidade.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Os meninos
Em verdade, uma menina e um menino. Os dois, os meninos da casa, a criançada, do barulho, da bagunça, do choro, do corre pra lá e do corre pra cá. Se bem que hoje em dia, tudo isso se aplica mais a ele que a ela, que é até quieta: menina mesmo, sensível, feminina, doce, terna, carinhosa, educada, gentil, justa... e é melhor parar por aqui e não dizer mais os predicados dela, pois alto é o risco de ser considerado suspeito para atribuí-los, já que sou o papai. O menino, bem, até os dois meses ele dormia e deixava dormir: de lá pra cá, é ele quem manda nas noites, o imperador noturno, dono da cama, donde me expulsou definitivamente, setenciando-me ao fundo de uma rede armada num canto frio do quarto. Mas eis que ele também reina de dia: alegre, um nada tímido menino, sorridente, brincalhão, dançarino, forte, carinhoso, comunicativo, ativo até demais da conta. São duas jóias do tesouro que tenho, duas jóias cujo brilho é luz que dá um sentido especial à vida.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
2009, 2010...
Irei recordar com especial carinho o ano de 2009 que, para mim, foi um ano de mudanças que em muito favoreceram certos ajustes familiares importantes.
O meu desejo premente é de que todos procurem, de alguma forma, se encaminhar um pouco mais para o bem em 2010, pelas vias do amor.
Que cada individualidade procure pensar, falar e agir focalizando um pouco mais a felicidade do outro: saibamos aproveitar a nossa liberdade, fazendo acontecer a nossa parte, que o amigo incodicional de nossas vidas é sempre por nós.
Feliz 2010.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
A Pracinha
E a noite já tinha aberto suas portas, desnudando uma profunda escuridão ponteada de estrelas lívidas sobre nós. Escapada do norte, uma brisa brincava com as folhas das árvores. Não me assoma à lembrança a imagem da lua... Talvez ela estivesse minguada na imensidão celeste, naquela noite fresca. As pessoas passeavam suas vidas pela pracinha. Algumas, em pé, trocavam a vida em palavras; outras, sentadas, pareciam contemplar sem querer o infinito, como uma forma de se submeterem, silentes, à passagem inexorável do tempo. Naquela pracinha, onde o verde festejava nos canteiros e as flores sorriam espargindo em generosa doação os seus perfumes, as luzes dos postes deitavam suas mansas claridades sobre as pessoas. Um jovem, uma criança e uma senhora (que já havia vivido mais que todos ali as alegrias e os destemperos que o destino outorgara) figuravam suas presenças num dos banquinhos de pedra da pracinha. As palavras iam e vinham entre eles, levando temas que o tempo já furtou da lembrança, enquanto o vigia do lugar parecia descansar mais que todos nós. Ali se amalgamavam três idades diferentes, três fontes de anseios, dúvidas, sonhos e esperanças diferentes, três universos que se juntavam por liames de afeto mútuo. Talvez, enquanto estivessem ali, o destino, alhures, tantas vezes caprichoso, tecia, engenhoso, alguns lances vindouros de suas vidas, os quais jamais poderiam supor com precisão. Por que estavam ali? O que faziam ali? Onde estariam amanhã ou uma década depois? Naquele momento, esses questionamentos – a nutrição basilar de plurais correntes filosóficas, por todos os tempos – não importavam para eles e nem sequer tangenciavam o corpo abstrato de suas mentes. Simplesmente absorviam o presente, enxergando e vivendo apenas os seus aspectos comuns, como o faziam todos os que ali se achavam. Na verdade, hoje sei que aquelas três vidas estavam alheias ao fato de que aquela pracinha, naquela noite, bonita e inolvidável, compunha um dos espaços da caverna em que vivemos todos.
02.12.2009
02.12.2009
sábado, 11 de julho de 2009
Reminiscências - Parte II
A lua deitava suas claridades opalinas sobre as matas naquela noite fria. Um grande alvoroço se havia formado na Casa Grande. A cabeça do petiz ainda não era capaz de alcançar o entendimento das motivações daquela enorme confusão, em que as agitações dos envolvidos e os seus gritos estrangulavam a serenidade da noite. Via-se no meio daquele tumulto como no olho de um ciclone: absolutamente perdido, entre as voltas que davam em torno dele e que ele dava em torno dos outros, sentindo uma forte incomprrensão diante da sequência daqueles acontecimentos horríveis, que lhe imprimiam uma angústia muito gravosa no mais íntimo do seu ser, agitando-lhe os sentimentos.
De chofre, o eixo daquele turbilhão de desentendimentos deslocou-se para fora da Casa Grande e tomou o rumo de um leito de areia ladeado por matas densas. O pai do petiz, cujo comportamento anormal dava mote a toda aquela situação, parecia incontrolável. Percebia-se inequivocamente a extravasão de seus sentimentos, principalmente a raiva, que mais o assemelhava a um insano, cujas ações denotavam a ausência de pudor e respeito pela presença dos filhos e de algumas outras pessoas que assistiam aquele espetáculo lastimável absortos e quase que sem acreditar naquilo que suas vistas e ouvidos registravam naqueles momentos.
O petiz também tomou o rumo do leito de areia, como que arrastado pela força dos fatos que sucediam naquele transe tormentoso de que era uma das vítimas. Vamos encontrá-lo entre seu pai e sua mãe, que vinham um de encontro ao outro, como que se preparando para um choque cujas consequências seriam imprevisíveis. Virou-se instantaneamente de encontro ao pai, estendendo os braços como um reflexo natural de quem sabe inevitável um choque, na derrdeira tentativa de defender-se e como a comunicar seu desejo desesperado de que o pai cessasse a sua fúria desenbestada. Quando deu por si, o lance já o havia atropelado. Estava ao chão. O rosto colado na areia fria, fria, que contrastava com o ardor que lhe corria na maçã do rosto atingida por um tapa covarde. Não se ergueu logo. Parecia compartilhar com a terra aquela angústia que lhe permeava cada poro da alma já combalida pela dor dos fatos que ali transcorriam amargamente; parecia, descrer que tudo aquilo pudesse estar sucedendo. A areia sorvia as lágrimas que lhe desciam do rosto contraído de medo. Permanecia no chão e dele percebia que pequenas luzes brilhavam na Casa Grande, do pavio das lamparinas que estavam acesas, como as atenções de todos naquela noite.
A partir daquele momento tudo pareceu acalmar-se mais. Voltou para casa sentindo o peso enorme da vida sobre seus ombros infantis.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Reminiscências - Parte I
Aquela pergunta distoou absolutamente dos propósitos do jantar. E não apenas porque trazia na sua vibração toda a intensidade de um questionamento inesperado. Foi feita com coragem, de chofre, olhos nos olhos e comunicava um sentimento de incompreensão com um estado de coisas que poderia ser totalmente diferente. Comunicava também ternura e inocência.
A fisionomia do interlocutor repercutiu todo o espanto provocado pela indagação. Buscava ele um local com os olhos, de soslaio, mas não o encontrava. Ele nunca olhava nos olhos de ninguém nos momentos decisivos. Buscava sempre evadir-se, para não confrontar-se com os problemas mais delicados e substanciais, de sua responsabilidade direta.
- Por que o senhor faz isso com a gente? Balbuciou a criança, movida pelo sentimento de sua causa, a qual compartilhava com sua mãe e seus dois irmãos. A mãe não se encontrava no recinto enquanto os dois irmãos sim e os mesmos pareciam indiferentes àquela pergunta, enquanto estavam à mesa. O jovem senhor não soube e nem pôde responder. Houvera sido impactado, nunca supunha que seu filho varão fosse lhe surpreender ali, naquela noite, acomodado diante daquela mesa como tantas outras vezes havia acontecido. Sua resposta foi o silêncio, mas um silêncio conturbado, como se evidenciava na sua inquietude indisfarcável, manifesta em seus olhos intranquilos nas órbitas e em cada músculo palpitante do seu rosto, que empalidecera. O garoto não era capaz de imaginar que o silêncio que obtivera como resposta à sua pergunta iria simbolizar o primeiros de muitos, que marcaria o modo de agir de seu pai durante muitos anos.
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